domingo, 25 de outubro de 2009

«O MANUAL DE MAUS COSTUMES»


«O MANUAL DE MAUS COSTUMES»







Asneira é uma palavra derivada de asno e, pelo menos entre os humanos, um asno é um estúpido, um homem (ou mulher) que faz, diz ou escreve asneiras. Os asnos não falam, não escrevem e são usados como metáfora, sem dúvida cruel e injusta, para designar um ser humano de vistas curtas e inteligência diminuta: se fosse preciso, pediria desculpa aos asnos verdadeiros por utilizar aqui a palavra asneira, do nome deles derivada. Porém, felizmente para mim e para eles, não terei que levar a cabo um tal pedido: eu uso apenas a palavra, sem pensar nos animais que, contrariamente à etimologia, do seu nome advinda, não produzem asneira, e eles nada sabem destas artimanhas verbais dos homens, pelo que ficamos todos bem - eu e os asnos (esses mesmos, os de quatro patas, os de orelhas compridas).

Ultimamente tenho ouvido muitas asneiras: e eis-me de novo a sair a terreiro para defender José Saramago. Não que ele precise seja de quem for para defendê-lo, mas porque a ignorância que grassa nas mentes é de tal modo grotesca que resolvi prestar alguns esclarecimentos a quem eles puderem ser, eventualmente, úteis.

Ainda não tive oportunidade de pôr a mão no livro «Caim» pois toda a atoarda emitida pelos meios de comunicação social, toda a polémica, e consequente criação de escândalo, produziram o efeito de varrer das livrarias a obra que foi esgotando em lotes sucessivos; quando decidi comprá-lo, não o encontrei em parte alguma. Porém, contrariamente a muitos daqueles que pregam contra as heresias, alegadamente proferidas nesse livro, eu conheço suficientemente a Bíblia para entender razoavelmente o sentido da expressão usada por Saramago ao referir-se ao livro sagrado como «um manual de maus costumes».

Obviamente que Saramago está a levar em conta o Antigo Testamento, esse em que um deus cruel e vingador pontifica como protagonista e desencadeador de inúmeras carnificinas, injustiças, calamidades, destruições, ódios, vinganças e por aí adiante. Um deus que, por inércia e ócio, se diverte a criar um mundo e nele dois seres privilegiados: o Homem e a Mulher. Instala-os no Jardim do Éden, fá-los senhores absolutos de um local de delícias mas com alguns limites, dentro do seu superior controle. Deixa-os fazer tudo, permite-lhes o prazer, a indolência, a gula, apresenta-lhes frutos prodigiosos e sumarentos das diversas árvores do Jardim: mas aponta-lhes uma, talvez a mais frondosa e colorida, decerto a que, no centro do Paraíso, prometia maiores delícias gustativas, e ordena: «Daquela não podereis comer, porque no dia em que o fizerdes expulsar-vos-ei do Paraíso!» Porém, ela estava lá, essa árvore magnífica, e o primeiro par de humanos passava por ali nas suas deambulações e não conseguia entender por que razão lhes era vedado tocar naquela, precisamente naquela, e só naquela. Que quereria Deus dizer com «expulso-vos do Paraíso»? E porque razão comer um fruto de uma árvore, no meio de tantos frutos de tantas árvores poderia ser motivo para «expulsão»? E mais: expulsão, para onde, se eles nada conheciam que não fosse aquele jardim, para eles concebido?

Ao mesmo tempo que deus criou a proibição, inventou, de igual modo, a tentação e a dúvida, inventou o engenho nas inteligências primevas e amodorradas dos primeiros humanos, que se sentiram inevitavelmente atraídos para aquilo que lhes havia sido proibido, querendo perceber a razão de semelhante restrição e, quem sabe?, entender também o sentido do termo expulsão e as consequências de semelhante castigo. Logo, deus criou, em simultâneo, a origem do pecado e o próprio pecado pois construiu Adão e Eva com uma perplexidade inicial, com um dilema e com um desafio. Deu-lhes tudo, à excepção do livre-arbítrio, concedeu-lhes o alimento do corpo em profusão, mas não lhes alimentou, do mesmo modo, a imaginação e a inteligência. E assim, inevitavelmente, os dois habitantes do Éden comem da árvore proibida! Eles «tinham» que comer e deus sabia disso. Eles «tinham» que vencer o desafio da proibição, ultrapassando-o, e deus também o sabia. Logo, deus criou Adão e Eva com essa capacidade inicial para não resistir à beleza de um fruto interdito pelo criador e sabia que estava a criá-los exactamente assim.

Que deus é este que gera a perfeição, mas lhe coloca, de imediato, limites e entraves? Que deus é este que dá tudo às suas criaturas – aquelas que criou à sua imagem e semelhança – e lhes põe permanentemente debaixo do olhar e de todos os sentidos o obstáculo à mesma perfeição? Que deus é este que coloca a espada da cisão e o fantasma da expulsão humilhante à frente dos seres criados como seu reflexo terreno?

Adão e Eva comem o fruto interditado e percebem uma quantidade de coisas que a cegueira amodorrada do jardim das delícias lhes tinha impedido de ver. E deus, o pai e criador, não está com meias medidas: expulsa-os e condena-os a uma existência dura e ingrata, envia-os para terrenos inóspitos que precisarão de cavar com as próprias mãos, de onde deverão fazer emergir o alimento, antes oferecido graciosamente, e obriga-os a multiplicarem-se como os outros seres da natureza na aflição e na dor.

Manual de maus costumes? É claro! Um pai que proíbe, sem explicar porque proíbe, um pai que ameaça castigar o prevaricador, sem dar qualquer indício do sentido de semelhante prevaricação, um pai que castiga e condena esses dois primeiros pecadores, e todos os outros que deles serão gerados, a um nascimento contaminado por uma falta absurda, insensata, ridícula. Imitaríamos nós um tal pai? Seríamos capazes de educar deste modo os filhos por nós concebidos?

Depois, Adão e Eva, na labuta terrena, engendram dois filhos: Caim e Abel. E deus, vigilante, observa que a índole de um é diferente da índole do outro e, em vez de acarinhar o mais fraco, em vez de se intrometer positivamente na construção do carácter de Caim, favorece, com a sua predilecção, Abel, o melhor dos dois, gerando a inveja, o ódio, o ímpeto assassino no desfavorecido, no rejeitado. Ambos trabalham e ambos oferecem a deus o produto das suas respectivas tarefas, cereais e cordeiros, e enquanto o pai e criador, recebe com agrado as oferendas de um, rejeita com desprezo as dádivas do outro. Que admira que a raiva recrudescente tenha levado Caim a matar Abel e a suprimir desse modo o privilegiado, seu rival, sua sombra, instrumento do seu castigo e da sua desgraça aos olhos de deus? Afinal, quem matou Abel não foi Caim, foi deus, esse que discriminou e enraiveceu e enregelou um irmão perante o outro, esse que a partir dessa hora abriu caminho para todas as guerras fratricidas perpetradas pelos milénios além e que, apesar dos esforços de muitos homens, continuam e continuarão acesas no lume sanguinário do sangue irado de Caim.

Manual de maus costumes? É claro! Que pai humano rejeita e abomina o seu filho, mesmo quando ele erra, que pai humano não se dispõe a acarinhar o filho mais fraco ou rebelde para o colocar no bom caminho? Que pai humano estabelece diferenças entre os seus filhos e rejeita ostensivamente as oferendas do menos bom que, apesar de ser menos bom, ainda assim quer agradar ao progenitor?

E um dia, o criador do mundo e dos seus primeiros habitantes humanos, obrigados a dar à luz em partos sucessivos, obrigados a descender de Caim, o ignominiado, o fugitivo, obrigados a albergar em si a semente do mal, neles deposta pelo próprio criador, enjoa-se da sua obra, fica repugnado com a miséria das suas criaturas reles, reles, porque ele assim as quis, reles porque reles era também o mesmo criador. Não pensa redimir o seu próprio erro e emendar, num gesto omnipotente, a mão inicial, salvando as criaturas perdidas pela sua própria incapacidade de educar a criatura. Torna-se assassino declarado e elimina toda a espécie num dilúvio universal, de onde não pretende deixar escapar a sombra de um homem; mas faz pior ainda: elege, de entre todos, um casal e a sua família, os únicos que no seio das multidões perversas e pervertidas lhe merecera complacência e, nesse gesto, discrimina, de novo, afunda nas águas revoltas homens, mulheres e crianças e apenas salva aquele punhado de seres, com a promessa de que, mais tarde, eles seriam a condição de um mundo melhor: esse que ele, enquanto deus, não foi capaz de conceber e executar.

Manual de maus costumes? Na história dos homens, só os bárbaros e os loucos, os tiranos e os ditadores promoveram, no mundo tal como o conhecemos hoje, genocídios aproximados a este! Só os degenerados que, apesar do sacrifício da geração de Noé continuaram a ser concebidos e tolerados por deus criador, levam a cabo, em pequena escala, um procedimento de tal modo cruel e implacável!

E a saga bíblica prossegue e encontramos um certo Abraão, dilecto de Deus, um homem poderoso e chefe de outros homens numa tribo de pastores, um homem eleito e contudo incapaz de ter um filho apesar de muitos pedidos a esse deus clemente e piedoso. E eis que em extrema velhice deus permite que Sara, a mulher estéril de Abraão, conceba e dê à luz um filho, Isaac, o primogénito, o descendente. Tudo parecia estar no devido lugar, até ao momento em que deus fala a Abraão e lhe exige que suba à montanha e uma vez ali, no silêncio absoluto e sem testemunhas lho ofereça em sacrifício! E Abraão não hesita, temente a deus, servil e incauto, e conduz Isaac inocente até ao sítio indicado por deus e, uma vez ali amarra-o, levanta a faca para degolá-lo; até que deus proclama: «Provaste a tua fé, por isso desamarra Isaac e sacrifica-me aquele cordeiro!»

Manual de maus costumes? Que Deus é este que dá um filho a um pai e o faz amá-lo e depois lho arranca na satisfação mesquinha de um simples capricho – «quero ver se valho alguma coisa para este homem, quero ver se ele tem fé em mim, quero testar de novo o meu poder!» Qual de nós obedeceria a semelhante Deus e se disporia a matar o próprio filho para satisfazer um capricho, por mais divino que fosse ou aparentasse ser? Qual de nós não morreria de horror perante a necessidade de assistir à morte terrível do sangue do nosso sangue, por nós mesmos executada? Qual de nós seria capaz de regressar para casa de boa consciência, mesmo depois do cancelamento do acto executório, e olhar nos olhos o filho prestes a ser executado e a mãe, companheira de vida e amante desse único filho gerado apesar da própria esterilidade?

Poderia prosseguir durante páginas e páginas mas não me parece que valha a pena. Estes exemplos chegam para definir o carácter desse nosso alegado criador, desse tirano caprichoso e incompetente, incapaz de fazer seja o que for de bom, e apesar disso vingando-se nas suas vítimas da própria imbecilidade.

Muito mais tarde, aparentemente, deus fez uma boa acção: inventou um filho mestiço – semi humano, semi divino – deu-lhe qualidades positivas e ordenou-lhe que salvasse os homens, pô-lo em condições de corrigir a sua maldade e incompetência criadora. Esse homem enigmático e de origem misteriosa, Jesus, inverte o sentido da implacabilidade criminosa do pai, anuncia o perdão, o amor, a benevolência e a tolerância. Opõe ao gume do machado, o gesto da bondade, ao grito de furor, a serenidade das palavras, à saga da destruição, a quietude de um mundo feito na concórdia. Todos sabemos que já era tarde demais, todos vemos que o hebreu Jesus passou pela terra sem que um só o entendesse cabalmente, a ponto de tornar universal a verdadeira boa nova. E de novo, o cristianismo emergente das palavras e dos actos cifrados desse filho de deus e do homem, miscigenado em corrupção divina e inocência humana, gerou crimes, ódio, guerra!

Manual de maus costumes? Que deus é este que envia um filho, através de um embuste humano – uma virgem que procria – para a seguir o condenar à morte ignominiosa dos ladrões e dos assassinos? Que deus é este que não é suficientemente eficaz enquanto pai, desta vez directo, de gerar um filho com a competência absoluta e efectiva de redimir o aleijão, criado e consentido, que dá pelos nomes de mundo e de humanidade?

Vá lá, vão ler a Bíblia, esse livro que tanto mal tem feito aos homens, geração após geração, leiam-no com sentido crítico, analisem-no com inteligência, não dêem ouvidos aos pregadores que inventaram, há um ou dois séculos, que, afinal, a Bíblia é apenas literatura, um texto magnífico engendrado por pessoas inspiradas e que tudo o que ali se consigna significa o contrário do que está expresso! Analisem aquelas histórias aterradoras e maquiavélicas como se elas fossem mesmo a história da nossa génese, e não como metáforas de um deus, afinal complacente e justo, mas desfigurado nas linhas alegóricas da mistificação literária. Talvez a seguir possam concordar com Saramago e admitir que a Bíblia é, de facto, um manual de maus costumes, um relato de perversões e maldades, de crimes e genocídios e que tudo isso tem a marca de um suposto criador, tido como omnipotente e infinitamente bom, mas afinal fraco, caprichoso e absurdamente maléfico.

domingo, 22 de março de 2009

ENSAIO FILOSÓFICO 1



Depois de meses de ausência, chegou a hora de reactivar este espaço. Faço-o, indirectamente, através da publicação de um ensaio filosófico realizado na sala de aula pelo Sérgio Couto, do 11º A, e a que atribuí o mesmo valor de um teste de avaliação. Será o primeiro de muitos, espero!


DE QUE MODO SÃO DADAS AO HOMEM AS IDEIAS INATAS, SEGUNDO DESCARTES?

Como são dadas ao homem as ideias inatas, segundo Descartes? Referimo-nos apenas às ideias inatas e não às ideias adventícias ou factícias (também apresentadas na teoria de Descartes). O objectivo deste ensaio é procurar responder, utilizando as teorias de Descartes, à pergunta que nos é dada acerca de como serão dadas as ideias inatas ao ser humano. Por que razão nos propomos responder a esta questão? Pois então não serão importantes para o Homem as ideias que já se encontram interiorizadas em si? Estas são perguntas que gostaríamos de ver respondidas e às quais nos propomos responder, pois, se não tentarmos compreender o mais básico de nós, manter-nos-emos na ignorância e na sombra da dúvida. É-nos pedido que analisemos a teoria de Descartes, por forma a responder a esta questão. Assim, compreenderemos o seu raciocínio, que certamente nos levará a uma resposta válida a esta problema.
Quando nos é apresentado o problema da obtenção das ideias inatas, podemos referir duas teses concorrentes. São eles a teoria da Reminiscência de Platão e a teoria Racionalista de Descartes. Embora ambas as teses defendam a existência de ideias inatas, defendem, contudo, maneiras diferentes de estas serem dadas ao homem. Enquanto Platão considera que a Alma detém todo o conhecimento e faz do homem o seu cativeiro, onde ela poderá ganhar experiência e transmigrar para o novo corpo (metempsicose), Descartes considera que as ideias inatas, nascidas com o homem, são a marca do criador no ser criado à sua semelhança. Enquanto a teoria de Platão defende que o conhecimento no Homem advém da recordação, Descartes considera que apenas as ideias inatas nascem com o Homem, sendo as outras apreendidas através dos nossos sentidos e imaginação.
A tese que me proponho defender é a tese racionalista apresentada por Descartes, que nos diz que as ideias inatas existem e nascem com o homem, sendo, no entanto, o homem capaz de apreender novo conhecimento durante a sua vida. Segundo Descartes, as ideias inatas, claras e distintas, não são inventadas por nós, mas produzidas pelo entendimento, sem recurso à experiência. Embora sejamos livres de pensar nelas ou não, elas têm uma natureza verdadeira e imutável. São ideias que nascem com o ser humano. De que outro modo poderíamos explicar a ideia que temos de Deus? Segundo Descartes, estas ideias são o que torna o Homem distinto dos restantes animais, a marca do Criador. Embora defenda que as ideias possam ser recordadas, esta teoria não defende a metempsicose.
Mas, como nos serão, então, dadas as ideias inatas? Ser-nos-ão dadas pelo Criador? Ou existirão na nossa alma que transmigra de corpo em corpo, esquecendo de cada vez todo o conhecimento que lhe é dado? Não poderá existir o Mundo Inteligível descrito por Platão? Ao recorrermos à teoria de Platão, ponderamos sobre a existência ou não desse mundo. Efectivamente, por vezes, parecemos já conhecer algo que nos é apresentado. Isto, que designamos de Ideias Inatas poderão ser como recuperações do conhecimento já adquirido pela alma, que perde o seu conhecimento aquando da entrada num novo corpo, para que este possa recuperá-lo ao longo da vida, contribuindo para aumentar a experiência da alma. Então, novamente ela transmigrará para um outro corpo, para que se inicie, de novo, o ciclo, sendo o objectivo a conquista do verdadeiro conhecimento pelo Homem. Assim sendo, todas as ideias existentes são inatas e provêm da nossa alma.
Contudo, nem todas as ideias do Homem podem ser denominadas como inatas, pois, embora tenhamos muitas vezes a sensação de nos recordarmos de algo, também ocorre precisamente o contrário: a descoberta de algo novo, diferente. Logo, terão de existir outras ideias (adventícias e factícias), como nos diz Descartes, ideias estas que provêm dos sentidos ou da imaginação do Homem. Quanto à maneira como as ideias inatas são dadas ao Homem, será que nos são trazidas pela Alma? Ou não serão elas já parte de nós, o que nos distingue dos animais? Será o nosso corpo algo que consideramos integrantemente nosso, apenas um cárcere da nossa verdadeira essência? Como nos seria então possível considerar o nosso “cárcere” realmente nosso e ter por ele tanto afecto? Todos nós nos sentimos como um conjunto de corpo e alma, não podendo um subsistir na ausência do outro. E todos possuímos ideias a que podemos chamar de ideias inatas, ideias que são parte integrante nossa e da nossa essência. São uma característica humana que nos poderá ter sido atribuída por uma entidade superior, mas que acima de tudo sabemos que existe e se encontra em nós, como defende Descartes. Apesar de teorias, como a teria empirista, que afirma que todo o conhecimento advém da experiência sensível, mas nega a existência de ideias inatas, todas estas sensações, todos estes impulsos da mente humana, levam-nos a acreditar, indubitavelmente, na sua existência e a acreditar que poderão ser a base necessária para a demanda do nosso conhecimento. Poderão ser um ponto de partida, sendo complementadas pela experiência no decorrer de uma vida. E são sem dúvida uma característica fulcral do ser humano. Assim, o corpo não deverá ser considerado um cárcere (como afirma Platão), mas sim um elemento fundamental na dualidade corpo-alma, essencial à existência e peça-chave na procura do conhecimento humano.
Em conclusão, analisando a tese defendida e todas as outras que foram estudadas para a realização deste ensaio, é-me possível afirmar que a teoria que considero mais válida será a teoria racionalista de Descartes, pois afirma a existência de vários tipos de ideias e considera o corpo como uma peça fundamental da existência, embora a esta mesma tese se possam apresentar dúvidas, quanto à maneira como estas ideias nos são atribuídas, pois Descartes recorre a uma explicação metafísica e talvez religiosa. Contudo, esta tese poderá explicar realmente a questão da existência e obtenção das ideias inatas.
Relativamente à teoria de Platão, esta poderá ser apoiada, tendo em conta a efemeridade da vida humana, pois considera o corpo como sendo apenas uma mera passagem na viagem da alma em busca do conhecimento. Mas poderemos também refutá-la, se analisarmos o sentimento imanente da posse do ser humano pelo seu corpo e pela dualidade imprescindível corpo-alma, pois um não poderá subsistir sem o outro e são independentes entre si. Quanto à teoria empirista, esta poderá ser refutada, tendo em conta que não aceita a existência de ideias inatas embora possa também ser considerada correcta em outros aspectos, no que diz respeito, por exemplo, à importância da experiência sensível no ser humano.
Assim sendo, posso concluir que embora possam ser colocadas dúvidas à tese de Descartes, esta deverá ser considerada, na minha opinião, como a mais válida e mais explícita em relação às ideias inatas, como parte integrante do Homem.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Impressões sobre o quadro O SAGRADO E O PROFANO


No quadro " O SAGRADO E O PROFANO" encontra-se pintado o que eu considero ser o cúmulo da maldade, do desprazer e, sobretudo, do obscuro.
Ao contemplar o quadro, vejo-me a ser invadido por um sentimento de angústia e de medo. Configura-se naquela tela o protótipo de toda a maldade praticada por todos os que se dizem ser os mensageiros de Deus na Terra, pois a Igreja que se encontra no quadro, para além de estar pintada de preto, encontra-se enraízada no solo, o que nos revela que, para além de todo o "mal" por eles praticado, são aceites pelas pessoas sem qualquer tipo de questões.
Todos os que provocam o desprazer, todos os que têm o medo como fonte infinita de felicidade podem nadar num mar de contentamento, pois as pessoas são completamente cegas por credos, por acreditarem que existe um Deus e que este pune os maus e rejubila de alegria pelos bons.
Em toda a estrutura do quadro encontra-se simbolizada, de uma forma acentuada, o que eu considero ser o maléfico: o facto de a igreja estar pintada de preto revela e reafirma tudo o que referi, porque esta cor, para além de ser a cor que mais absorve radiações, considero-a como um vazio sem fim, um poço de obscuridade, cuja esperança de fuga se encontra nas brechas de luz que, de forma ténue e leve, rasgam o preto da igreja.

Gilberto, nº7, 10º B

O quadro RASGÃO


O quadro que eu escolhi, para relatar o que me transmitia, foi o "RASGÃO".
Quando olhamos para um quadro estamos desde logo a conviver com artistas que nos querem transmitir alguma coisa, embora cada pessoa o possa interpretar de maneira diferente.
Uma obra de arte exige uma leitura especial, a minha leitura deste quadro e o que nele me chamou mais a atenção foi um contraste bastante significativo entre a vida e a morte, onde se vê uma luz enorme num ser adormecido que trasmite uma paz imensa a quem o observa. Logo de seguida há um rasgão de sangue entre outro ser humano, este com os olhos abertos. Pela minha interpretação, o rasgão de sangue que os separa é, no fundo, o sofrimento que todos os seres humanos passam na vida, tendo que ultrapassar as mais variadas dificuldades encontradas no dia a dia. Está evidenciado depois um ser humano adormecido, ou talvez morto, mas com luz, o que faz transbordar uma paz depois do sofrimento já percorrido ao longo da vida. No fundo, foi este contraste entre a vida e a morte que me cativou neste quadro, uma vez que para todos os seres humanos vivos a morte continua ainda um grande mistério que ninguém consegue desvendar.
Gostei da exposição como um todo, os quadros estão bem pintados e interessantes. Parabéns!

Ana Catarina Monteiro, Nº1, 10º B

sexta-feira, 25 de julho de 2008

À minha turma B do 10ºAno (em 2007/2008)


Acabo de concluir que a norma estabelecida pelo ministério, segundo o qual um professor deve ficar pelo mesnos três anos na mesma escola para poder dar continuidade às suas turmas, é (ou pode tornar-se) num logro!
Durante o ano lectivo de 2007/2008 leccionei quatro turmas de 10º Ano de Filosofia, desbravei terreno inexplorado, ensinei-lhes o método capaz de analisar, sintetizar, comentar, compreender e muito mais, método esse que permite penetrar no território da filosofia e torná-lo familiar e útil. Cheguei ao final do ano lectivo com a noção de que um longo caminho acabara de ser percorrido e vi, mesmo nos alunos menos preparados, à partida, as condições propícias para continuar a caminhada no próximo ano lectivo...comigo! Ontem, bruscamente, fui surpreendida com a notícia de que, por necessidade de juntar duas turmas devido ao número exíguo de cada uma delas ( a saber: 11º B - 12 alunos;11ºC - 14 alunos)iria ficar sem os meus alunos da turma B devido a um «critério», mais parecido com um truque do que com um verdadeiro critério, segundo o qual quem fica com a turma, feita por adição de turmas, é aquele professor que...teve mais alunos no ano anterior! Perdi, pois, por 2, e eu gostava de saber como se procederia se acaso em vez de a proporção ser 12-14, fosse 13-13!!!Provavelmente, atiraríamos a moeda ao ar!
Assim se joga, com critérios desprovidos de rigor, o destino dos alunos! Sei bem que, tal como eu, a professora da turma C quererá dar continuidade à sua turma...então porque não se adicionam alunos, existentes a mais nas outras turmas e se fazem duas turmas de 15 ( já que é o numero mínimo para fazer uma turmma)? Porque não ficam assim mesmo as turmas e se permite trabalhar com poucos alunos, estabelecendo a almejada continuidade? Confesso a minha decepção, já que a turma B foi daqueles casos de progressiva maturação e, mesmo no final, percebi que os alunos estavam prontos para a Filosofia...será justo para eles verem mudadas as regras do jogo que os fiz jogar durante este ano lectivo e aprenderem a jogar outro - porque cada professor imprime um estilo diferente às suas aulas e eles terão que adaptar-se?

De qualquer modo, e caso não seja possível inverter a «equação« de 14+12=26 (vence a professora dos 14) para 12+14=26 (vence a professora dos 12)e os 26 fiquem entregues à sócia maioritária (desculpem, mas é assim que me soa!), quero, aqui e agora, dizer aos meus alunos do 10ºAno, Turma B, do ano de 2007/2008, o quanto lamento não poder continuar com eles a caminhada!

OBRIGADA JOANA!


Mesmo que apenas um(a) aluno(a) reconheça em mim, enquanto professora, as qualidades e características que a Joana não hesita em enunciar para quem queira ler, isso é estímulo suficiente para encarar o ensino como uma tarefa grandiosa.
A relação que estabeleci com ela foi em tudo igual à que estabeleço com todos os outros: a diferença é que ela viu algo mais que os outros não conseguiram ou não quiseram ver, ou, se acaso perceberam que há em mim algo de especial, enquanto professora - e logo comunicadora - não chegaram a admiti-lo.
Porque a Joana soube ver e teve coragem de se aproximar de mim, a amizade nasceu, porque a amizade é o verdadeiro fundamento e por isso o alicerce das relações humanas, e ser professor é exactamente isso: estabelecer relações!
A guerra aluno/professor é antiga e, muitas vezes, trava-se também ao contrário (leia-se: professor/aluno). O meu objectivo é, e foi sempre, transformar a luta em entendimento, em cooperação, em caminho partilhado. Curiosamente, foi a turma da Joana aquela que, no ano lectivo de 2007/2008, menos contribuiu para esta troca afectuosa e útil entre pares (porque, afinal, sejamos professores ou alunos pertencemos todos à espécie humana!) Eles sabem que, através de um grupo restrito, mas nem por isso passível de ser ignorado, transformaram a maior parte das aulas numa tragédia, quando não numa comédia, ou num palco de ofensas bilaterais! Talvez não tenham entendido que, sempre que os repreendi ou tratei com aspereza, estava, no fundo, a dar-lhes sinal para mudarem de conduta e aprenderem a SER!
No próximo ano, voltaremos a encontrar-nos: e eu só posso desejar que este tempo de férias seja a oportunidade de crescimento que nos permitirá ( a mim e a todos eles) estabelecer a verdadeira relação de seres humanos, que ali nos encontramos duas vezes por semana para tratar de filosofia - afinal a disciplina do pensamento, a oportunidade de formar sólidas convicções e argumentos para usar ao londo da vida.
Entretanto, agradeço à Joana: ela soube chegar até mim e eu cheguei até ela e, do mesmo modo que um professor marca um aluno, também um aluno pode marcar um profesor e dar-lhe alento para prosseguir!

OBRIGADA JOANA!

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Prof.Regina!*

Nada na vida é tão bom como ter pessoas com quem se pode contar. Aquelas que sempre que precisámos, vão estar por perto e com certeza têm sempre aquela palavrinha de conforto. Temos os nossos pais, é claro, mas existem outras pessoas que, não sei, parece ser mais fácil de compartilhar alguns assuntos, alguns momentos.
São com elas que aprendemos grandes lições, conquistámos muitos carinhos, enfrentámos inúmeros desafios, ganhámos coragem, começamos etapas nas nossas vidas. São elas que estão por perto em determinados momentos onde ninguém mais poderia estar, a não serem elas.
Com os amigos, superámos barreiras, aprendemos a amar de uma forma diferente, de querer bem e estar bem. Amigos são pessoas maravilhosas que por mais que apareçam os problemas, lá estão eles connosco, passando por cima de tudo.
É lógico que nem todos os amigos são assim, afinal de contas, existem amigos e amigos!Existem aqueles de determinadas horas, ocasiões, dias, épocas, enfim...Existem vários tipos de amigos!
Mas este tipo de amiga que aqui cito, é alguém muito especial, única, diferente!
Aquela com quem me sinto bem quando estou por perto, aquela que me dá segurança, apesar de às vezes não parecer!Aquela com quem convivi durante 9 meses quase diariamente...
Aquela que de alguma forma, não dá p'ra esquecer de modo nenhum! Aquela que está junto de mim nas horas mais importantes da minha vida! Aquela com quem, a cada dia que passa, aprendo mais e me sinto melhor.Aquela com quem quero estar sempre, mesmo que um dia vá para longe!Aquela que sempre que acontece algo de novo, quer ser a primeira a saber!Aquela que, por mais que eu viva, jamais sairá do meu coração!Aquela que eu gosto, que eu ajudo, que eu admiro, que eu confio!Aquela de quem eu nunca me vou esquecer!Aquela que não importa a situação ou a hora em que me encontre, sabe que sempre vai poder contar comigo, para o que der e vier...Aquela que eu simplesmente adoro pelo simples facto de já fazer parte da minha vida e por me fazer ter vontade de continuar a viver, por mais que a vida para mim já não signifique nada! Aquela que sabe o que é a VIDA!Aquela que sabe VIVER!
Uma amiga mais que importante, mais que especial! Uma amiga que me faz ver tudo e todos de todas as formas. Que me faz ver o que há de bom e que abre os meus olhos para que não cometa erros, ou pelo menos, tenta evitar que eu os cometa!
Espero poder sempre contar consigo, com a sua presença, com os seus conselhos, com a sua amizade, com a sua confiança, com a sua ajuda!

9 meses vividos em conjunto, foram suficientes para perceber que é uma pessoa única e que, por muito tempo que passe, estará para sempre guardada no meu coração!
Em Setembro, voltaremos a encontrar-nos!

OBRIGADA!

[Para Prof.Regina]