

Depois de meses de ausência, chegou a hora de reactivar este espaço. Faço-o, indirectamente, através da publicação de um ensaio filosófico realizado na sala de aula pelo Sérgio Couto, do 11º A, e a que atribuí o mesmo valor de um teste de avaliação. Será o primeiro de muitos, espero!
DE QUE MODO SÃO DADAS AO HOMEM AS IDEIAS INATAS, SEGUNDO DESCARTES?
Como são dadas ao homem as ideias inatas, segundo Descartes? Referimo-nos apenas às ideias inatas e não às ideias adventícias ou factícias (também apresentadas na teoria de Descartes). O objectivo deste ensaio é procurar responder, utilizando as teorias de Descartes, à pergunta que nos é dada acerca de como serão dadas as ideias inatas ao ser humano. Por que razão nos propomos responder a esta questão? Pois então não serão importantes para o Homem as ideias que já se encontram interiorizadas em si? Estas são perguntas que gostaríamos de ver respondidas e às quais nos propomos responder, pois, se não tentarmos compreender o mais básico de nós, manter-nos-emos na ignorância e na sombra da dúvida. É-nos pedido que analisemos a teoria de Descartes, por forma a responder a esta questão. Assim, compreenderemos o seu raciocínio, que certamente nos levará a uma resposta válida a esta problema.
Quando nos é apresentado o problema da obtenção das ideias inatas, podemos referir duas teses concorrentes. São eles a teoria da Reminiscência de Platão e a teoria Racionalista de Descartes. Embora ambas as teses defendam a existência de ideias inatas, defendem, contudo, maneiras diferentes de estas serem dadas ao homem. Enquanto Platão considera que a Alma detém todo o conhecimento e faz do homem o seu cativeiro, onde ela poderá ganhar experiência e transmigrar para o novo corpo (metempsicose), Descartes considera que as ideias inatas, nascidas com o homem, são a marca do criador no ser criado à sua semelhança. Enquanto a teoria de Platão defende que o conhecimento no Homem advém da recordação, Descartes considera que apenas as ideias inatas nascem com o Homem, sendo as outras apreendidas através dos nossos sentidos e imaginação.
A tese que me proponho defender é a tese racionalista apresentada por Descartes, que nos diz que as ideias inatas existem e nascem com o homem, sendo, no entanto, o homem capaz de apreender novo conhecimento durante a sua vida. Segundo Descartes, as ideias inatas, claras e distintas, não são inventadas por nós, mas produzidas pelo entendimento, sem recurso à experiência. Embora sejamos livres de pensar nelas ou não, elas têm uma natureza verdadeira e imutável. São ideias que nascem com o ser humano. De que outro modo poderíamos explicar a ideia que temos de Deus? Segundo Descartes, estas ideias são o que torna o Homem distinto dos restantes animais, a marca do Criador. Embora defenda que as ideias possam ser recordadas, esta teoria não defende a metempsicose.
Mas, como nos serão, então, dadas as ideias inatas? Ser-nos-ão dadas pelo Criador? Ou existirão na nossa alma que transmigra de corpo em corpo, esquecendo de cada vez todo o conhecimento que lhe é dado? Não poderá existir o Mundo Inteligível descrito por Platão? Ao recorrermos à teoria de Platão, ponderamos sobre a existência ou não desse mundo. Efectivamente, por vezes, parecemos já conhecer algo que nos é apresentado. Isto, que designamos de Ideias Inatas poderão ser como recuperações do conhecimento já adquirido pela alma, que perde o seu conhecimento aquando da entrada num novo corpo, para que este possa recuperá-lo ao longo da vida, contribuindo para aumentar a experiência da alma. Então, novamente ela transmigrará para um outro corpo, para que se inicie, de novo, o ciclo, sendo o objectivo a conquista do verdadeiro conhecimento pelo Homem. Assim sendo, todas as ideias existentes são inatas e provêm da nossa alma.
Contudo, nem todas as ideias do Homem podem ser denominadas como inatas, pois, embora tenhamos muitas vezes a sensação de nos recordarmos de algo, também ocorre precisamente o contrário: a descoberta de algo novo, diferente. Logo, terão de existir outras ideias (adventícias e factícias), como nos diz Descartes, ideias estas que provêm dos sentidos ou da imaginação do Homem. Quanto à maneira como as ideias inatas são dadas ao Homem, será que nos são trazidas pela Alma? Ou não serão elas já parte de nós, o que nos distingue dos animais? Será o nosso corpo algo que consideramos integrantemente nosso, apenas um cárcere da nossa verdadeira essência? Como nos seria então possível considerar o nosso “cárcere” realmente nosso e ter por ele tanto afecto? Todos nós nos sentimos como um conjunto de corpo e alma, não podendo um subsistir na ausência do outro. E todos possuímos ideias a que podemos chamar de ideias inatas, ideias que são parte integrante nossa e da nossa essência. São uma característica humana que nos poderá ter sido atribuída por uma entidade superior, mas que acima de tudo sabemos que existe e se encontra em nós, como defende Descartes. Apesar de teorias, como a teria empirista, que afirma que todo o conhecimento advém da experiência sensível, mas nega a existência de ideias inatas, todas estas sensações, todos estes impulsos da mente humana, levam-nos a acreditar, indubitavelmente, na sua existência e a acreditar que poderão ser a base necessária para a demanda do nosso conhecimento. Poderão ser um ponto de partida, sendo complementadas pela experiência no decorrer de uma vida. E são sem dúvida uma característica fulcral do ser humano. Assim, o corpo não deverá ser considerado um cárcere (como afirma Platão), mas sim um elemento fundamental na dualidade corpo-alma, essencial à existência e peça-chave na procura do conhecimento humano.
Em conclusão, analisando a tese defendida e todas as outras que foram estudadas para a realização deste ensaio, é-me possível afirmar que a teoria que considero mais válida será a teoria racionalista de Descartes, pois afirma a existência de vários tipos de ideias e considera o corpo como uma peça fundamental da existência, embora a esta mesma tese se possam apresentar dúvidas, quanto à maneira como estas ideias nos são atribuídas, pois Descartes recorre a uma explicação metafísica e talvez religiosa. Contudo, esta tese poderá explicar realmente a questão da existência e obtenção das ideias inatas.
Relativamente à teoria de Platão, esta poderá ser apoiada, tendo em conta a efemeridade da vida humana, pois considera o corpo como sendo apenas uma mera passagem na viagem da alma em busca do conhecimento. Mas poderemos também refutá-la, se analisarmos o sentimento imanente da posse do ser humano pelo seu corpo e pela dualidade imprescindível corpo-alma, pois um não poderá subsistir sem o outro e são independentes entre si. Quanto à teoria empirista, esta poderá ser refutada, tendo em conta que não aceita a existência de ideias inatas embora possa também ser considerada correcta em outros aspectos, no que diz respeito, por exemplo, à importância da experiência sensível no ser humano.
Assim sendo, posso concluir que embora possam ser colocadas dúvidas à tese de Descartes, esta deverá ser considerada, na minha opinião, como a mais válida e mais explícita em relação às ideias inatas, como parte integrante do Homem.